Das vozes

Mark Lanegan – St Louis Elegy

If tears were liquor I’d have drunk myself sick

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Paragem

“Custa tanto saber o que se sente quando reparamos em nós!… Mesmo viver sabe a custar tanto quando se dá por isso… Falai, portanto, sem repardes que existis… …Quem pudesse gritar para despertarmos! Estou a ouvir-me gritar dentro de mim, mas já não sei o caminho da minha vontade para a minha garganta.”
Fernando Pessoa

Hoje cantar-te-ía os parabéns

Como explicar a dor da ausência. Como explicar como dói a tua ausência. Como ainda dói a tua perda. Nunca to disse. Nunca o disse a ninguém. Raras vezes mo disse. O que dói são as saudades do que vivemos. O que dói são as saudades do que nunca vivemos. O que dói é sentir tudo difuso. O que dói são as traições da memória, essas falhas que me esmagam, frustam e derrotam. O que dói é esta falta de clareza, de entendimento, tantas vezes de sentimento. O que dói é a falta que me fazes e que não pode ser, não é só egoísmo. Não é! O que dói são as saudades do que nunca consegui aprender contigo. O que dói é o que nunca compreendi, o que nunca atingi, o que, se calhar, até impedi. O que dói é o que nunca alcançamos. O que dói são as desilusões, as alegrias, as derrotas, as conquistas, as tolices que não partilhamos. Dói também o tempo perdido. O que adiei, neguei, recusei e, estupidamente, até reneguei. O que dói é o que já não vamos ter. O que nunca teremos. O que não aproveitamos. O que nos tiraram. O que dói é não conseguir avançar. O que dói é este intervalo. Este nó, este aperto, este peso. O que dói é este vazio que me preenche e que nada nem ninguém pode fazer desaparecer. O que dói é o amor que nunca te fiz sentir as vezes suficientes. O que dói é sentir que, se calhar, nunca me esforcei verdadeiramente. O que dói é o que nunca te disse. O que dói é nunca ter usado as palavras. O que dói é todas as palavras do mundo serem tão ridiculas e vazias. O que dói é todas as palavras não serem suficientes. O que dói é tão mais que a saudade.  Dói também sentir que te desiludi. Dói mais saber que não me é permitido redimir-me. O que dói é esta distância e saber que não posso correr para ti. O que dói é não ter tempo. Nem desculpa. Já disse que o que dói é não conseguir avançar? Estranhamente, também dói o ter avançado. Dói este tempo que não pára, mas também o tempo que parece ter parado. O que dói é esta falta de clareza, de entendimento, às vezes, de sentimento. Dói continuar a sentir e ter deixado de sentir. Doeu aquele instante. Doeram mais os momentos que se seguiram. Ainda dói. Dói tudo. Dói continuar, dói parar. Dói lutar, dói desistir. Dói ser rochedo, dói quebrar. Dói lembrar-te, mas dói muito mais esquecer-te. Dói tanto não poder guardar todos os momentos, mesmo os maus, todos os gestos, todas as palavras, todas as cumplicidades, todos os gestos, todos os sorrisos, todos os olhares. Todos, repito. Todos. Apenas e nada mais do que todos atenuaria a dor do que me obriguei  a esquecer. Dói tanto não me lembrar. O que dói, pressenti-o na altura, sei-o agora, continuará a doer. Vai doer sempre. Em pequenas coisas, em grandes momentos, nas alegrias, nas tristezas, nas rotinas diárias ou em ocasiões especiais. Sempre. A tua ausência dói-me. Como dói não poder, mais uma vez, cantar-te os parabéns. Seria hoje.

Conta-me

Cuéntame Como Vives, Cómo Vas Muriendo

“Cuéntame cómo vives;
dime sencillamente cómo pasan tus días,
tus lentísimos odios, tus pólvoras alegres
y las confusas olas que te llevan perdido
en la cambiante espuma de un blancor imprevisto.

Cuéntame cómo vives;
ven a mí, cara a cara;
dime tus mentiras (las mías son peores),
tus resentimientos (yo también los padezco),
y ese estúpido orgullo (puedo comprenderte).

Cuéntame cómo mueres;
nada tuyo es secreto:
la náusea del vacío (o el placer, es lo mismo);
la locura imprevista de algún instante vivo;
la esperanza que ahonda tercamente el vacío.

Cuéntame cómo mueres;
cómo renuncias -sabio-,
cómo -frívolo- brillas de puro fugitivo,
cómo acabas en nada
y me enseñas, es claro, a quedarme tranquilo.”

Gabriel Celaya

Nada sabemos

“Nunca sabremos si los engañados
son los sentidos o los sentimientos,
si viaja el tren o viajan nuestras ganas,
si las ciudades cambian de lugar
o si todas las casas son la misma.
Nunca sabremos si quien nos espera
es quien debe esperarnos, ni tampoco
a quién tenemos que aguardar en medio
del frío de un andén. Nada sabemos.
Avanzamos a tientas y dudamos
si esto que se parece a la alegría
es sólo la señal definitiva
de que hemos vuelto a equivocarnos”

Amalia Bautista

Tédio

“Tão dado como sou ao tédio, é curioso que nunca, até hoje, me lembrou de meditar em que consiste. Estou hoje, deveras, nesse estado intermédio da alma em que nem apetece a vida nem outra coisa. E emprego a súbita lembrança de que nunca pensei em o que fosse, em sonhar, ao longo de pensamentos meio impressões, a análise, sempre um pouco factícia, do que ele seja.

Não o sei, realmente, se o tédio é somente a correspondência desperta da sonolência do vadio, se é coisa, na verdade, mais nobre que esse entorpecimento. Em mim, o tédio é frequente, mas, que eu saiba, porque reparasse, não obedece a regras de aparecimento. Posso passar sem tédio um domingo inerte; posso sofrê-lo repentinamente, como uma nuvem externa, em pleno trabalho atento. Não consigo relacioná-lo com um estado da saúde ou da falta dela; não alcanço conhecê-lo como produto de causas que estejam na parte evidente de mim.

Dizer que é uma angústia metafísica disfarçada, que é uma grande desilusão incógnita, que é uma poesia surda da alma aflorando aborrecida à janela que dá para a vida – dizer isto, ou o que seja irmão disto, pode colorir o tédio, como uma criança ao desenho cujos contornos transborde e apague, mas não me traz mais que um som de palavras a fazer eco nas caves do pensamento.

O tédio… Pensar sem que se pense, com o cansaço de pensar; sentir sem que se sinta, com a angústia de sentir; não querer sem que se não queira, com a náusea de não querer – tudo isto está no tédio sem ser o tédio, nem é dele mais que uma paráfrase ou uma translação. E, na sensação directa, como se de sobre o fosso do castelo da alma se erguesse a ponte levadiça, nem restasse, entre o castelo e as terras, mais que o poder olhá-las sem as poder percorrer. Há um isolamento de nós em nós mesmos, mas um isolamento onde o que separa está estagnado como nós, água suja cercando o nosso desentendimento.

O tédio… Sofrer sem sofrimento, querer sem vontade, pensar sem raciocínio… É como a possessão por um demónio negativo, um embruxamento por coisa nenhuma. Dizem que os bruxos, ou os pequenos magos, conseguem, fazendo de nós imagens, e a elas infligindo maus tratos, que esses maus tratos, por uma transferência astral, se reflictam em nós. O tédio surge-me, na sensação transposta desta imagem, como o reflexo maligno de bruxedos de um demónio das fadas, exercidas, não sobre uma imagem minha, senão sobre a sua sombra. E na sombra íntima de mim, no exterior do interior da minha alma, que se colam papéis ou se espetam alfinetes. Sou como o homem que vendeu a sombra, ou, antes, como a sombra do homem que a vendeu.

O tédio… Trabalho bastante. Cumpro o que os moralistas da acção chamariam o meu dever social. Cumpro esse dever, ou essa sorte, sem grande esforço nem notável desinteligência. Mas, umas vezes em pleno trabalho, outras vezes no pleno descanso que, segundo os mesmos moralistas, mereço e me deve ser grato, transborda-se-me a alma de um fel de inércia, e estou cansado, não da obra ou do repouso, mas de mim.

De mim porquê, se não pensava em mim? De que outra coisa, se não pensava nela? O mistério do universo, que baixa às minhas contas ou ao meu reclínio? A dor universal de viver que se particulariza subitamente na minha alma mediúnica? Para quê enobrecer tanto quem não se sabe quem é? É uma sensação de vácuo, uma fome sem vontade de comer, tão nobre como estas sensações do simples cérebro, do simples estômago, vindas de fumar demais ou de não digerir bem.

O tédio… É talvez, no fundo, a insatisfação da alma íntima por não lhe termos dado uma crença, a desolação da criança triste que intimamente somos, por não lhe termos comprado o brinquedo divino. É talvez a insegurança de quem precisa mão que o guie, e não sente, no caminho negro da sensação profunda, mais que a noite sem ruído de não poder pensar, a estrada sem nada de não saber sentir…

O tédio… Quem tem Deuses nunca tem tédio. O tédio é a falta de uma mitologia. A quem não tem crenças, até a dúvida é impossível, até o cepticismo não tem força para desconfiar. Sim, o tédio é isso: a perda, pela alma, da sua capacidade de se iludir, a falta, no pensamento, da escada inexistente por onde ele sobe sólido à verdade.”

Bernardo Soares

Armas mágicas

“A música, o luar e os sonhos são as minhas armas mágicas.

Mas por música não deve entender-se só aquela que se toca, se não também aquela que fica eternamente por tocar.

Por luar, ainda, não se deve supor que se fala só do que vem da lua e faz as árvores grandes perfis; há outro luar, que o mesmo sol não exclui, e obscurece em pleno dia o que as coisas fingem ser.

Só os sonhos são sempre o que são.

É o lado de nós em que nascemos e em que somos sempre naturais e nossos.”

Fernando Pessoa