Hoje cantar-te-ía os parabéns

Como explicar a dor da ausência. Como explicar como dói a tua ausência. Como ainda dói a tua perda. Nunca to disse. Nunca o disse a ninguém. Raras vezes mo disse. O que dói são as saudades do que vivemos. O que dói são as saudades do que nunca vivemos. O que dói é sentir tudo difuso. O que dói são as traições da memória, essas falhas que me esmagam, frustam e derrotam. O que dói é esta falta de clareza, de entendimento, tantas vezes de sentimento. O que dói é a falta que me fazes e que não pode ser, não é só egoísmo. Não é! O que dói são as saudades do que nunca consegui aprender contigo. O que dói é o que nunca compreendi, o que nunca atingi, o que, se calhar, até impedi. O que dói é o que nunca alcançamos. O que dói são as desilusões, as alegrias, as derrotas, as conquistas, as tolices que não partilhamos. Dói também o tempo perdido. O que adiei, neguei, recusei e, estupidamente, até reneguei. O que dói é o que já não vamos ter. O que nunca teremos. O que não aproveitamos. O que nos tiraram. O que dói é não conseguir avançar. O que dói é este intervalo. Este nó, este aperto, este peso. O que dói é este vazio que me preenche e que nada nem ninguém pode fazer desaparecer. O que dói é o amor que nunca te fiz sentir as vezes suficientes. O que dói é sentir que, se calhar, nunca me esforcei verdadeiramente. O que dói é o que nunca te disse. O que dói é nunca ter usado as palavras. O que dói é todas as palavras do mundo serem tão ridiculas e vazias. O que dói é todas as palavras não serem suficientes. O que dói é tão mais que a saudade.  Dói também sentir que te desiludi. Dói mais saber que não me é permitido redimir-me. O que dói é esta distância e saber que não posso correr para ti. O que dói é não ter tempo. Nem desculpa. Já disse que o que dói é não conseguir avançar? Estranhamente, também dói o ter avançado. Dói este tempo que não pára, mas também o tempo que parece ter parado. O que dói é esta falta de clareza, de entendimento, às vezes, de sentimento. Dói continuar a sentir e ter deixado de sentir. Doeu aquele instante. Doeram mais os momentos que se seguiram. Ainda dói. Dói tudo. Dói continuar, dói parar. Dói lutar, dói desistir. Dói ser rochedo, dói quebrar. Dói lembrar-te, mas dói muito mais esquecer-te. Dói tanto não poder guardar todos os momentos, mesmo os maus, todos os gestos, todas as palavras, todas as cumplicidades, todos os gestos, todos os sorrisos, todos os olhares. Todos, repito. Todos. Apenas e nada mais do que todos atenuaria a dor do que me obriguei  a esquecer. Dói tanto não me lembrar. O que dói, pressenti-o na altura, sei-o agora, continuará a doer. Vai doer sempre. Em pequenas coisas, em grandes momentos, nas alegrias, nas tristezas, nas rotinas diárias ou em ocasiões especiais. Sempre. A tua ausência dói-me. Como dói não poder, mais uma vez, cantar-te os parabéns. Seria hoje.

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