Solitário de solidão

“(…) Solitário: mas não no sentido de estar só. Não solitário como Thoreau o foi, por exemplo, Thoreau que se exilou para se encontrar; não solitário como Jonas, pedindo a Deus a liberdade quando estava no ventre da baleia. Solitário no sentido de retirada. No sentido de não se ver a si mesmo sendo visto pelos outros. (…)

Impossível, dou-me conta, penetrar na solidão de outra pessoa: Se é verdade que podemos chegar a conhecer, mesmo que escassamente, um outro ser humano, é-o apenas na medida em que esse ser humano esteja disposto a dar-se a conhecer. Um homem dirá: Tenho frio. Ou não dirá nada e nós olharemos para ele e veremos que treme. De uma mameira ou outra, saberemos que ele tem frio. E o homem que não diz nada e que não treme? Perante um domínio onde tudo é intratável, onde tudo é hermético e evasivo, a única coisa que podemos fazer é observar. Porém, se podemos ou não compreender aquilo que observamos já é outra questão – completamente diferente.

Eu não quero presumir nada.

Ele nunca falava de si mesmo, parentemente nunca soube que havia algo de que pudesse falar. Era como se a sua vida interior também lhe escapasse a ele.

Ele não era capaz de falar disso. Logo passava por cima disso em silêncio.

Portanto, se não há nada a não ser o silêncio, não será presunção minha falar? E no entanto: se tivesse havido algo mais que o silêncio, teria eu alguma vez sentido a necessidade de falar? (…)”

Paul Auster “Inventar a solidão”

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